31.8.11

Laranjas no ar

- É grande mas vale a pena. Adoro este texto ;)

"Pega no telefone e liga-lhe, não tens nada a perder. Diz-lhe que tens saudades dele, que ninguém te faz tão feliz, que os teus dias são secos, frios e áridos, como um deserto imenso, sem oásis nem miragens, sempre que não estão juntos. Pega no telefone e liga-lhe. Se ele não atender, deixa-lhe uma mensagem. Ou então escreve-lhe uma mensagem a dizer que queres estar com ele. Não te alongues nem elabores, os homens nunca percebem o que queres deixar cair nas entrelinhas. Tens de ser clara, directa, incisiva. E não podes ter medo, porque o medo é o maior inimigo do amor. Cada vez que deixares o medo entrar-te nas tuas veias, ele vai gelar-te o sangue e paralisar-te os nervos, ficas transformada numa estátua de sal e morres por dentro.
A vida é uma incógnita, hoje estás aqui, amanhã podes ficar doente, ou cair-te um piano em cima quando fores a andar na rua. Ainda há pessoas que atiram pianos pela janela, sabias? Nunca se sabe como será o dia de amanhã, por isso não percas tempo: pega no telefone e liga-lhe. Tenho a certeza que ele te vai ouvir, tenho a certeza que ele te vai ajudar, tenho a certeza que ele, à sua maneira - e é tão estranha a forma como os homens gostam de nós - ainda gosta de ti. Mesmo que já não te ame, ainda gosta de ti, como tu vais aprender a gostar dele, quando a vida te obrigar a desistir deste amor. Ele está longe, mas olha por ti por entre memórias, presentes e flores. À noite, entre sonhos alterados pelo álcool, tu apareces-lhe na cama e ele volta a sentir o cheiro da tua pele e volta a amar-te com todas as suas forças. Ainda que não acredites, tu viverás para sempre nele, tal como ele vive em ti, na memória das tuas células, num passado que pode ser o teu escudo, mesmo que não seja o teu futuro.
Pega no telefone e liga-lhe. Fala com ele de coração aberto, diz-lhe que o queres ver, chora se for preciso, pede-lhe que te diga se sim ou se não. Se for preciso, por mais que te custe, pede-lhe para te escrever a palavra NÃO. Pede-lhe uma resposta para o teu coração. Mais vale saberes que acabou tudo do que viveres com as laranjas todas no ar, qual malabarista exausto, sem saberes nem como nem quando elas vão cair. Mais vale chorar a tristeza de um amor perdido do que sonhar com um oásis que se transformou numa miragem.
Pega no telefone e liga-lhe. Liga as vezes que forem precisas até conseguires uma resposta, a paz de uma certeza, mesmo que essa certeza não seja a que desejavas ouvir. Mas não fiques quieta, à espera que a vida te traga respostas. A vida é tua, tens de ser tu a vivê-la, não podes deixar que ela passe por ti, tu é que passas por ela. E quando todas as laranjas caírem, apanha-as com cuidado, guarda-as num cesto e muda de profissão. O circo é para quem não tem casa nem país, não é vida para ninguém. Guarda as laranjas num cesto, leva-as para casa e faz um bolo de saudades para esquecer a mágoa. E nunca deixes de sonhar que, um dia, tal como eu, vais encontrar alguém mais próximo e mais generoso, que te ensine a ser feliz, mesmo com todas as pedras que encontrarem no caminho.
Larga as laranjas e muda de vida. A vida vai mudar contigo."
 Margarida Rebelo Pinto

30.8.11

'Drawing a Love' - Parte I

- Decidi começar a escrever uma história. Não sei o que vai sair daqui, mas aqui está a Parte I ;) -


Estava um calor insuportável naquela tarde. Marta nunca foi uma grande fã do verão. Sempre gostou mais do frio gelado do inverno, de poder estar em casa e ver a chuva cair lá fora. Sentia-se segura nesses momentos. Mas naquele dia ela decidiu sair. Foi uma vontade estranha, ela não costumava sair assim, sozinha, sem rumo.
Estava num banco do jardim a desenhar no seu bloco de notas quando viu uma multidão ao longe disposta em círculo. Quis saber o que se passava e foi até lá. Ao abrir caminho por entre todas aquelas pessoas começou a ver o motivo daquela concentração. No centro do círculo de curiosos estava um rapaz desmaiado, muito pálido. Marta reviu ali a sua irmã, que desmaiava sem razões aparentes. Descobriu-se que sofria de uma doença grave. Não sobreviveu. Marta dirigiu-se ao rapaz sem pensar e ajudou-o. O rapaz acordou, Marta respirou de alívio e perguntou:
- Como te chamas? Estás bem?
O rapaz ainda meio atordoado respondeu:
- Eu… eu chamo-me… Ivo…
- Sentes-te bem, Ivo? É melhor ires ao hospital…
- Não, não é preciso. Eu já estou bem, agora.
- Hum, está bem. Mas se voltar a acontecer tens que ir.
- Sim, sim… Agora tenho que ir, obrigado por tudo.
- De nada… e tem cuidado…
Marta viu-o desaparecer ao longe. Sentia-se bem por ter sido útil, já que não pôde ajudar a sua irmã quando ela mais precisou. Não voltou a ver Ivo nos dias seguintes. Mas, num outro dia em que ela quis, inexplicavelmente, sair sem rumo, viu-o do outro lado da rua a passear o seu cão. Marta ficou a vê-lo, a prestar-lhe mais atenção do que da última vez. Ele era alto, muito alto, e moreno. Cabelo curto, escuro e olhos azuis. Tinha uma tatuagem no tornozelo, um terço e outro rabisco que não se percebia ao longe. Marta decidiu atravessar a rua e ir ter com ele…
Ivo: Ah, olá. Foste tu que me ajudaste no outro dia no jardim, não foste? Desculpa, nem te agradeci como deve ser. Nem sei o teu nome…
Marta: Marta, chamo-me Marta. E não tens nada que agradecer, só fiz o que qualquer um faria.
Ivo: Obrigado Marta. E claro que tenho que agradecer. Afinal, estava lá tanta gente e só tu me ajudaste, não é verdade?
Marta: Pois… lá isso é verdade… E não voltaste a desmaiar?
Ivo: Não, não te preocupes… acho que deve ter sido do calor. Então… e o que é que uma menina tão bonita estava a fazer sozinha no jardim? – disse, envergonhado. Marta corou e ficou sem resposta. – Não precisas ficar envergonhada, só disse a verdade…
Marta: Oh, obrigada, és um querido. Eu vim passear, estava a desenhar uns rabiscos no meu bloco de notas. – respondeu apontando para o caderninho.
Ivo: Hum, e o menino querido pode ver essas obras de arte?
Marta: Obras de arte?? Ahahah… são mais lixo do que outra coisa, mas podes ver. Não te rias da minha “arte”.
Marta passou-lhe o caderno a medo. Ivo abriu-o e ficou maravilhado. Eram desenhos lindos, belos.
Ivo: Estás a brincar, não é? São lindos! Tens que me fazer um destes desenhos, eu quero um só para mim!
Marta: Estás só a ser simpático. Não são nada de especial… Mas eu faço-te um, se quiseres…
Ivo: Olha, eu tenho que ir… tens aqui o meu número. Liga-me.
Marta: Ok…
Marta não teve tempo de dizer mais nada. Ele foi-se embora a correr, puxado pela trela do cão. Durante o resto do dia, Marta não pensou em mais nada a não ser no desenho que lhe iria oferecer. Tinha que ser perfeito.

24.8.11

Viver



Gosto do silêncio. Gosto de ficar sozinha, calada, a ouvir apenas os pássaros lá fora. Acalma-me. Leva-me para um sítio feliz, pacífico. Um sítio irreal, um sonho, um mundo em que damos graças apenas por estarmos vivos. De repente, tenho que voltar à realidade, um mundo cheio de guerra, raiva. Um mundo onde não se dá importância à vida, só se fala da morte…

19.8.11


"Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria matar a sede com água salgada."
 - Miguel Torga

14.8.11

The Past can hurt...


    Passado. Dizem que “o passado não importa, o que importa é o presente”. Concordo em parte. O passado importa, e muito. O passado é o que nos difere, é o que nos caracteriza, é parte do que somos. Claro, o presente é mais importante. Ainda podemos mudá-lo, vivê-lo. Mas muitas vezes, o que me ajuda a superar o presente é pensar no passado. Não sei porquê, mas pensar no passado faz-me querer voltar atrás no tempo, a um momento específico, e ficar lá. Para sempre. Nesse momento, eu fui realmente feliz, por motivos que chegam a ser ridículos por serem tão simples. Agora não tenho esses motivos. Até posso ter outros, muitos outros. Mas não são aqueles motivos. Ao pensar nesse momento, começo a sorrir sem razão aparente, e quem me visse pensaria que estava a enlouquecer. Porém, no meu passado, já sorri pelos mesmos motivos e quem me visse percebia-os. Apesar de tudo isto, o meu passado é apenas isso mesmo, e não o posso voltar a viver.

Ana Costa ; 13.08.2011

12.8.11

Loser


"There's nothing wrong with being a loser, it just depends on how good you are at it."
(Billie Joe Armstrong)

9.8.11

O melhor e o pior dia

   
   Há pouco vi um daqueles desafios num blogue que consistia em fazer uma publicação todos os dias com um tema diferente. Alguns desses temas chamaram a minha atenção, dois em particular: “o pior dia da tua vida” e “o melhor dia da tua vida”. É claro, lembrei-me logo dos dias em que me senti mais triste e daqueles em que fui mais feliz. Mas depois pensei melhor e percebi que o pior dia da minha vida e o melhor dia da minha vida foram, basicamente, o mesmo. Sim, o mesmo. Pode parecer contraditório, mas quando eu explicar acho que vai ficar claro.
    Quando eu andava no 5º ou 6º ano descobri que tinha uma escoliose, que é uma curvatura na coluna, possivelmente desde que nasci. Depois de muitas consultas e muitas radiografias concluiu-se que eu precisava de fazer uma operação. Na altura não fiquei muito preocupada, mas quando chegou o dia não podia estar mais assustada. Eu sei que há cirurgias muito mais graves e doenças mais graves, mas na altura não pensei sequer nisso. Voltando à história, quando chegou o dia da cirurgia acordaram-me cedo e lá fui eu para o bloco operatório. Quando acordei só me lembro de ter imensas dores nas costas e de chamar pela minha mãe. Passados dois dias tinham que me tirar os drenos, os tubinhos por onde tiravam o sangue que ficara por lá a vaguear. O primeiro saiu com um puxão apenas. Senti uma dor como se me estivessem a apertar tudo por dentro. O segundo estava preso e não saiu tão facilmente como o outro. O médico, com toda a sua gentileza disse-me “vou tentar puxá-lo com mais força, mas não digas à tua mãe que vou fazer isto”. Ele puxou, e rebentou o dreno. E devo dizer que foi bastante doloroso. Lá fui eu outra vez para o bloco operatório para retirar o resto do dreno.
    Bem, esta é a minha história. Então, voltando ao assunto do desafio, o dia da minha operação foi o pior e o melhor. Foi o pior porque senti imensas dores, tanto nesse dia como nos dias seguintes, e foi o melhor, porque me fez ver que consigo aguentar melhor a dor do que pensava. Assim, sempre que penso que não vou conseguir fazer algo ou que não aguento a dor (física ou não) basta lembrar-me deste dia e daquilo por que passei. Pode não parecer muito importante, mas para mim é. Percebi que apesar de aparentar ser uma pessoa frágil, sou forte.

    Ah, e a linda cicatriz que tenho nas minhas costas… muitos podiam envergonhar-se de ter assim uma e até a tentariam tapar, mas eu não me envergonho nem um bocadinho de a ter :D

6.8.11

Green Day ♥

"...When it's time to live and let die
And you can't get another try
Something inside this heart has died
You're in ruins..."

5.8.11


"É incrível como uma pessoa pode partir-nos o coração e mesmo assim a continuamos a amar com todos os pequenos pedaços."

4.8.11

Loucos e Santos

     "Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."
                                                                                        Oscar Wilde