Marta pegou no seu lápis mordiscado e no seu caderninho já estragado pelo uso. Ficou tempos infinitos a olhar para a folha em branco sem saber o que fazer. E se o Ivo não gostasse? Ia ser horrível. Começou a fazer uns rabiscos no canto da folha. E a partir daí parecia que alguém pegava na sua mão e a guiava. Quando deu por si o desenho estava feito. Uma linda imagem de um menino e uma menina, sentados num banco a olharem para uma praia deserta, com o sol a pôr-se. Marta gostou do desenho, mas estava nervosa. Nervosa e ansiosa por saber a opinião do seu novo amigo. Pousou o lápis e olhou para o seu relógio da secretária. Era tardíssimo! Ela nem tinha dado conta das horas a passarem. Bocejou, estava cansada. Foi dormir. No dia seguinte, tomou um banho, vestiu o seu vestido fresco de verão e foi tomar o pequeno-almoço. Voltou ao seu quarto e viu o desenho em cima da secretária mesmo ao lado do papelinho com o número do Ivo. Arrumou o quarto e mandou-lhe uma mensagem: ‘Já fiz o teu desenho. Quando nos encontramos? Beijinhos, Marta (:’. Passados dois minutos ouviu o seu telemóvel tocar. Tinha respondido: ‘Estou ansioso por ver essa obra-prima, eheh. Que tal hoje no jardim, às 15h? Prometo que hoje não fujo à pressa ;)’. Marta ficou radiante e respondeu-lhe a confirmar o encontro. Até à hora do encontro, ela tentou arranjar a melhor roupa para vestir. Acabou por se decidir pelo vestido que os seus pais lhe tinham oferecido há pouco tempo. Chegada a hora do encontro, Marta já estava no jardim, à espera do Ivo. Chegou atrasado, Pediu imensas desculpas. Ela aceitou e entregou-lhe o desenho.
Ivo: Uau!! Está lindo, Marta! Obrigado, muito obrigado. És uma querida.
Marta: Ora, não está nada de especial. Ainda bem que gostaste. Estava com medo de fazer má figura.
Ivo: Não tinhas que estar nervosa. Eu sabia que ia ficar lindo vindo de ti…
Marta: Lá estás tu outra vez. Assim deixas-me envergonhada.
Ivo: Pronto, pronto… Não quero que te chateies… Vamo-nos sentar e falar um bocado? - Marta acenou que sim e foram sentar-se em frente ao lago do jardim. Falaram durante horas, riram, conheceram-se. De repente, Marta olhou de relance para o pé de Ivo. Conseguiu ver o terço tatuado e um nome junto dele: Pedro. Ficou curiosa e decidiu perguntar quem era Pedro, apontando para a tatuagem. Ivo baixou a cabeça e ficou muito sério. Marta podia jurar que lhe tinha visto uma lágrima a escapar-se dos seus olhos.
Marta: Desculpa… não tenho nada a ver com isso… não devia ter perguntado.
Ivo: Não, não faz mal. O Pedro é… era o meu irmão. Morreu há 5 meses de leucemia…
Marta: Oh, lamento muito… não fazia ideia, não devia ter falado nisso, desculpa.
Ivo: Não peças desculpa… enquanto eu me lembrar dele, é como se ele ainda estivesse vivo para mim… percebes? É uma ideia muito parva, eu sei… - Marta ficou também muito séria, pensativa e respondeu que não era de todo uma ideia parva.
Ivo: O que é que se passa? Porque ficaste assim?
Marta: A minha irmã também morreu há uns meses, quase há um ano. E sinto-me exactamente como tu. Enquanto me lembrar dela é quase como se ela ainda estivesse viva. Apenas está longe de mim…
Ivo: Lamento muito… acho que o destino nos juntou para nos apoiarmos um ao outro, hein? – soltou um riso para tornar a situação menos pesada.
Marta: Pois, acho que sim… - ficou a olhar para ele e um sorriso esboçou-se na sua boca. O mesmo aconteceu com Ivo. Foi como se eles pensassem da mesma forma, agissem da mesma forma, sentissem da mesma forma. Parecia que eram uma só pessoa naqueles breves segundos.
Ivo: Sabes… só te conheço há uns dias, mas tu fascinas-me. Tens tanta alegria em ti, tanto talento, tanta vida. Precisava mesmo de conhecer alguém assim como tu…
Marta: Sinto o mesmo… parece que te conheço melhor do que ninguém. Mais importante, parece que tu me conheces melhor do que eu própria me conheço…
Ivo: Adorei esta tarde… não quero que acabe.
Marta: Nem eu. Mas tenho que ir para casa. A minha mãe precisa da minha ajuda para arrumar lá umas coisas… Podemos encontrar-nos amanhã outra vez?
Ivo: Não podemos… TEMOS que nos encontrar. Achas que eu aguentava um dia sem te ver?
Ivo: Não podemos… TEMOS que nos encontrar. Achas que eu aguentava um dia sem te ver?
Marta: Eu também não aguentava estar tanto tempo sem te ver. Bem, tenho que ir. - Levantaram-se e beijaram-se. Parecia um conto de fadas. Marta sentia-se no paraíso e tinha encontrado o seu príncipe. Despediram-se. Foi para casa e pelo caminho, na sua cabeça, ecoavam as palavras de Ivo. E à medida que as ‘ouvia’ sorria.

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